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quinta-feira, 30 de junho de 2011


Sagrada profanação... Tambores em orquestra

            Certo dia presenciei algo inédito em minhas andanças. Estava no centro da cidade à noite e ouvi alguns barulhos, como sabia da chegada do carnaval em pouco menos de um mês, resolvi conferir. Então, não mais que de repente, um ensaio de escola de samba: bumbos e tamborins, jovens e velhos (também jovens), cantos e apitos, suor e cerveja, samba e carnaval; tudo isso no largo de uma igreja bicentenária no interior das Minas. Era a comunidade se preparando para o que de mais importante existe nas terras tupiniquins. Não havia como não se envolver, em pouco tempo estava eu com cerveja, suor e sambando a la boneco de Olinda.
            Foi ali que eu entendi o quão sagrada é a festa da carne. É a celebração da alegria, espontânea, não havia tristeza ali, não havia maldade. É a mais sacra das profanações. Nunca vi um largo tão alegre, com devotos tão aguerridos.
            Para além do caráter divino desta celebração, houve outra parte que me deixou perplexo: a bateria. Quando todos estavam ao ritmo pulsante daqueles tambores, alguém falou: “Olha a bateria! Parece uma orquestra!” Pronto, caiu a ficha. A bateria é a orquestração dos tambores! Algo tão óbvio passou-me despercebido!
            Foi ai que eu vi o maestro com sua batuta, era o mestre, ele sabia cada movimento de cada peça da sua equipe. Ouvi os surdos, que faziam os graves lá atrás para marcar. Depois, as caixas com suas variações. Chocalhos, agogôs, cuíca, reco-reco e pandeiros dando todo o brilho ao espetáculo. Enfim, havia o spalla com seu violino! Era o repique, ele conduzia todos os músicos, solava, ditava as deixas e paradas. Por fim, a bateria era a trilha sonora daquela festa sacrossanta, vi no olho de cada músico uma grande carga de responsabilidade e fervor.
            Foi assim o happy hour daquela noite, um espetáculo de carnaval que não vemos nos dias do calendário oficial, parte do cotidiano daquele lugar e que merece uma atenção pra lá de especial por sua espontaneidade e, como não poderia deixar de ser, animação. Muitos dos que estão ali envolvidos têm outras profissões, outras atividades, entretanto, o fato de defender sua bandeira vale qualquer sacrifício. Afinal, será que os valores se encontram apenas no interior das igrejas? 

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